Episódio 01·12 de março de 2025·4 min de leitura
O Recomeço
O início de um novo capítulo na minha trajetória como engenheiro de masterização autodidata.
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De tocar para processar
Nos últimos anos, fui saindo aos poucos do lugar de intérprete para o de produtor, da mixagem para a masterização. Eu tinha construído um fluxo de trabalho. Tinha alguns clientes. Tinha confiança. Aí veio aquela terça-feira.
No meio do que eu achava que seria uma reunião tranquila no estúdio onde eu colaborava, ouvi isto:
Não está bom o suficiente, cara. A gente não consegue continuar vendendo os seus serviços. Talvez seja o seu ouvido. Ou aquele setup híbrido, tem problema de fase ali. A gente vai ter que te dispensar.
No começo achei que fosse brincadeira. Não era. E de repente eu estava encarando uma realidade silenciosa e brutal: alguma coisa não estava funcionando.
Encarando a situação
Em vez de entrar em espiral, resolvi refletir. Onde estavam as falhas, no meu setup, nos meus hábitos, nos equipamentos, no meu ouvido, no meu processo?
Primeira parada: o DAW.
Eu vinha trabalhando no Reaper, um ambiente flexível mas muitas vezes sem estrutura. O Reaper não é feito para fluxos de masterização de fábrica. Alinhamento de fase manual, compensação de latência inconsistente… tive que admitir que parte do problema era o meu sistema.
Testei o Sequoia (lindo, mas uma dor de cabeça nativa de PC rodando em Mac) e no fim parei no WaveLab Pro da Steinberg. Foi de cara muito mais intuitivo para masterização, rígido onde precisava ser, com cadeias de plugins e fluxos de AB mais limpos. As coisas já começaram a mudar. O WaveLab é outro animal comparado a qualquer DAW que usei até hoje, e é bem menos permissivo que o Reaper, o que no meu caso é melhor, porque o fluxo dele não me deixa introduzir microerros capazes de estragar um master lá na frente.
Uma cadeia de escuta em que eu pudesse confiar
Meu espaço de estúdio estava longe do ideal. Então decidi abrir mão da sala e apostar nos fones. Pelo menos por enquanto.
Troquei meus Shure SRH1440 pelos Audeze MM-500, um upgrade sério. Juntei com um DAC Grace Design m900, seguindo o conselho de um engenheiro de masterização experiente que eu admiro. Agora mando um sinal SPDIF limpo direto do meu Apollo Twin para o Grace, pulando qualquer etapa de conversão desnecessária.
Para simular o crossfeed dos monitores e melhorar o realismo do estéreo, acrescentei o Goodhertz CanOpener e comecei a calibrar meus fones com o SoundID Reference. Meu novo monitoramento? Preciso. Repetível. Honesto. E finalmente confio no que estou ouvindo.
Fase: o assassino silencioso
Uma das principais críticas que recebi foi sobre problemas de fase.
Comparamos o seu master com a versão de outro engenheiro. O seu estava com a fase invertida.
Fiquei chocado. Mas foi um chamado à realidade. Mergulhei em correlação de fase, imagem mid/side e largura estéreo, coisas que eu achava que entendia. Descobri que tinha muito mais a aprender.
Comecei a trabalhar a fundo com ferramentas como HOFA IQ-Analyzer, Ozone Imager e iZotope Insight. Passei a ouvir e enxergar o equilíbrio estéreo de um jeito completamente novo. O que antes soava como jargão técnico virou uma parte intuitiva do meu processo de QA.
QA, referências… e ChatGPT?
Hoje estruturo toda sessão de masterização com um checklist de QA. LUFS, RMS, fator de crista, LRA, inclinação espectral, THD, abertura estéreo, compatibilidade mono. Quero que os números sustentem a vibe.
Por incrível que pareça, venho usando o ChatGPT como apoio nesse processo. Subo as métricas, comparo os meus resultados e uso ele para checar se o meu raciocínio faz sentido. Não substitui orientação humana nem décadas de ouvido treinado, mas é um ótimo espelho, principalmente quando estou enfiado até o pescoço nos detalhes.
E agora?
Fiz faxina. Literalmente.
Tirei a bagunça desnecessária: equipamento parado, telas demais e cabos embolados. Diminuí a mesa. Me dei espaço para respirar. Comecei a confiar na minha cadeia, a confiar no meu ouvido (enquanto o testo) e, o mais importante, a confiar na minha disposição de evoluir.
Esta série não é sobre fingir que eu já entendi tudo. É sobre honestidade. Crescimento. E construir algo sustentável.
Então é isso: Episódio 1, O Recomeço. Vamos ver onde essa estrada dá.
Publicado também no Substack e no Medium ·12 de março de 2025